ANÁLISE POEMA #046 - "QUEM SABE... SER?" (17/11/2025)

 ANÁLISE POEMA #046 - "QUEM SABE... SER?" (17/11/2025)


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FICHA TÉCNICA DO POEMA


Elemento Descrição

Título Quem sabe... Ser?

Data 17/11/2025

Posição #046 (de 55)

Contexto Novembro de 2025, mesmo dia de "O Sol" (#045)

Versos 30

Tom Reflexivo, dual, conflituoso, profético

Estrutura 7 estrofes irregulares

Assinatura Bob Marley / Não deixe a fúria cair sobre mim


---


TEXTO COMPLETO DO POEMA


```

Quem sabe... Ser?


Quem sabe um dia enfim

Nós tornaremos gloriosos

Redimidos dessa saga

De ditadores auspiciosos?


Muitos quiseram reinar

Com intrigas mentiras fofocas e dissoluções

Dissolvecoes e rompeduras de contratos

Infiéis em gestos palavras e intenções


São o mal encarnado na terra

Destruíram serras flores belas e até a atmosfera

Malditos sejam em silêncio

Mas me arrependo até disto


Queria ser mal e feio contundente


Entre meus dentes serralhiro xilrear

Como um grou de afrodescendentes

Um xamã a xamanizar


Segura o Deus minha vital

Necessidade de fazer o bem

Versus vontade de fazer o mal

O bem e o mal estão em mim

Por isso vivo nesse abismo sem fim


Como um barco que está a derivar

Perdido pelo mar sem fim.


Sem querer a maré do tempo mostre a tua ira

Cantou Bob Marley

Não deixe a fúria cair sobre mim

```


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ANÁLISE CRÍTICA


1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS


1.1. O Título e a Hipótese do Ser


"Quem sabe... Ser?" — o título propõe uma hipótese fundamental: quem sabe um dia o "ser" se tornará mais importante que o "ter"? A pergunta suspensa pelas reticências aponta para uma transformação possível: a valorização da essência sobre a posse, da identidade sobre a acumulação.


Virtude técnica: As reticências no título já estabelecem o tom especulativo, a possibilidade aberta de um futuro onde o ser prevaleça.


1.2. A Estrutura do Conflito


O poema é construído sobre oposições que refletem a dualidade humana:


1. A esperança de redenção histórica (versos 1-4) — gloriosos, redimidos

2. A maldade dos que detêm poder (versos 5-8) — intrigas, mentiras

3. A destruição causada pelos poderosos (versos 9-12) — mal encarnado

4. O desejo de ser contundente (versos 13-16) — "queria ser mal e feio contundente"

5. O bruxismo e a maldição silenciosa (versos 17-20) — serralhar, xilrear

6. O xamã negro (versos 21-24) — grou de afrodescendentes

7. O conflito vital (versos 25-28) — necessidade de fazer o bem versus vontade de fazer o mal

8. O barco à deriva (versos 29-32) — mar sem fim

9. Bob Marley (versos 33-35) — a fúria contida


1.3. A Repetição do Mar


"Como um barco que está a derivar / Perdido pelo mar sem fim."


A imagem do barco à deriva (de #009, #018, #034, #037) retorna. O mar sem fim é o abismo, a vida, a espera — e também o cenário onde a ira divina pode se manifestar.


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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS


2.1. A Esperança de Redenção Histórica (Versos 1-4)


"Quem sabe um dia enfim / Nós tornaremos gloriosos / Redimidos dessa saga / De ditadores auspiciosos?"


A pergunta abre o poema com uma esperança condicional. "Quem sabe" — talvez um dia sejamos gloriosos, redimidos da longa história de opressão.


Os ditadores auspiciosos são aqueles que se anunciam como favoráveis, promissores, mas exercem o poder de forma tirânica. Não são apenas governantes — são aqueles que usam sua inteligência e astúcia para praticar o mal através da ditadura. A referência abrange os "bastidores de impérios" e os pseudo-presidentes que, em diversos países, se revelam verdadeiros ditadores.


"Gloriosos" significa ter glória, honra, paz — ser da paz. Essa é a verdadeira glória: não o poder, mas a paz.


2.2. A Maldade dos Poderosos (Versos 5-8)


"Muitos quiseram reinar / Com intrigas mentiras fofocas e dissoluções"


Os que quiseram reinar usaram os piores meios: intrigas, mentiras, fofocas, dissoluções (desagregação, destruição). São aqueles que, na história, construíram impérios à custa de outros povos.


"Dissolvecoes e rompeduras de contratos / Infiéis em gestos palavras e intenções"


"Dissolvecoes" (neologismo) — dissoluções, desmanches. Romper contratos, ser infiel em tudo — gestos, palavras, intenções. É o retrato daqueles que detêm o poder e o usam para oprimir.


2.3. A Destruição Causada (Versos 9-12)


"São o mal encarnado na terra / Destruíram serras flores belas e até a atmosfera"


A maldade se encarna e age concretamente: destruir serras (mineração predatória), flores (natureza), atmosfera (crise climática). A crítica ecológica retorna, agora conectada à ação dos poderosos.


"Malditos sejam em silêncio / Mas me arrependo até disto"


O desejo de amaldiçoar os maus — mas o arrependimento vem logo. Até a maldição é problemática para quem tem o bem e o mal dentro de si.


2.4. O Desejo de Ser Contundente (Versos 13-16)


"Queria ser mal e feio contundente"


Este verso é revelador. O eu lírico reconhece que o mal também está nele, e a feiura talvez já seja sua realidade. Mas ser contundente é diferente — é ter argumentos com fundamento, é agir na prática com procedimentos que fazem sentido, que dizem respeito ao real. A contundência é a capacidade de impactar, de fazer valer a palavra e a ação.


Seria mais fácil ter essa clareza, essa potência de argumento e ação, do que viver na ambiguidade.


2.5. O Bruxismo e a Maldição Silenciosa (Versos 17-20)


"Entre meus dentes serralhiro xilrear"


Aqui se desdobra uma imagem complexa e precisa:


· Serralhar (ou serralhirar) — é o movimento do maxilar com raiva, o bruxismo que antecede o ranger de dentes. Enquanto o ranger ocorre quando o esmalte já está carcomido e o atrito interno produz som, o serralhar é o movimento repetitivo, a tensão que prepara a destruição.

· Xilrear — é um tipo de praguejar em voz baixa, como Ana no tabernáculo que balbuciava palavras (I Samuel 1,13). É a maldição murmurada, a reclamação que não se torna grito, mas que carrega toda a ira contida.


Entre os dentes, ele serralha e xilrea — a raiva se manifesta no corpo e na palavra abafada.


2.6. O Xamã Negro (Versos 21-24)


"Como um grou de afrodescendentes / Um xamã a xamanizar"


A grou (ou gurar) é uma ave — talvez uma referência a uma espécie específica ou a uma figura simbólica. "Grou de afrodescendentes" conecta a ave à ancestralidade negra, à sabedoria dos povos africanos.


O xamã a xamanizar é aquele que transita entre mundos, que cura, que invoca, que media. O eu lírico se vê como xamã — e como xamã negro, herdeiro de tradições ancestrais.


2.7. O Conflito Vital (Versos 25-28)


"Segura o Deus minha vital / Necessidade de fazer o bem / Versus vontade de fazer o mal"


A palavra "vital" é chave. Refere-se ao plexo solar — centro de energia vital nos chakras, fonte do impulso de vida. "Segura o Deus minha vital" é um pedido: que Deus sustente sua energia vital, sua força interior.


O conflito se explicita:


· Necessidade de fazer o bem — um impulso vital, uma urgência interior

· Vontade de fazer o mal — também vital, também presente


A necessidade (mais forte que a vontade) de fazer o bem coexiste com a vontade (desejo, impulso) de fazer o mal. O bem e o mal habitam o mesmo ser.


"O bem e o mal estão em mim / Por isso vivo nesse abismo sem fim"


A coexistência dos opostos dentro de si é a causa do abismo. E esse abismo tem uma origem concreta: os conflitos existenciais provocados pela dependência química e suas repercussões negativas em diversos âmbitos da vida, a começar pelo familiar. O abismo não é abstrato — é vivido, sentido, sofrido.


2.8. O Barco à Deriva (Versos 29-30)


"Como um barco que está a derivar / Perdido pelo mar sem fim."


A imagem clássica (de #009) retorna. O barco à deriva é a vida sem direção, a alma dividida, o ser que não encontra porto.


2.9. Bob Marley e a Ira Contida (Versos 31-35)


"Sem querer a maré do tempo mostre a tua ira / Cantou Bob Marley / Não deixe a fúria cair sobre mim"


A referência é à canção "I Know" de Bob Marley, traduzida como "Eu Sei" por Tribo de Jah no álbum Tributo a Bob Marley. Os versos originais falam sobre não desejar que a ira divina se manifeste, sobre pedir proteção contra a fúria.


A mesma passagem aparece no poema #007 ("Escravos da Aflição"), criando uma conexão interna entre os dois poemas. A fúria — divina, histórica, cósmica — pode cair sobre ele. O pedido é que isso não aconteça.


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3. O CONFLITO VITAL E O ABISMO


O poema atinge sua profundidade máxima na explicitação do conflito entre necessidade e vontade:


Força Direção Origem

Necessidade Fazer o bem Vital, essencial

Vontade Fazer o mal Também vital


A dependência química é o pano de fundo concreto desse conflito. As repercussões negativas — familiares, sociais, existenciais — criam o abismo onde o eu lírico habita.


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4. O XAMÃ NEGRO E A SABEDORIA ANCESTRAL


A figura do xamã negro conecta o poema a tradições ancestrais:


Elemento Significado

Grou Ave simbólica, sabedoria

Afrodescendentes Herança africana

Xamã Mediador, curador

Xamanizar Exercer a função xamânica


O eu lírico não apenas sofre o conflito — ele também é aquele que pode curar, que pode transitar entre mundos, que pode integrar os opostos.


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5. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES


5.1. Com a Filosofia


Filósofo Conceito Diálogo

Nietzsche Além do bem e do mal A superação da dualidade

Kierkegaard Ou isto ou aquilo A angústia da escolha

Paulo O bem que quero não faço Romanos 7

Agostinho O conflito das duas vontades O bem e o mal em mim


5.2. Com a Espiritualidade Africana


Tradição Conceito Diálogo

Candomblé Axé Energia vital

Xamanismo Viagem espiritual Xamã a xamanizar

Ancestralidade Sabedoria dos mais velhos Grou de afrodescendentes

Curandeirismo Cura Segura o Deus


5.3. Com a Psicologia do Vício


Psicólogo Conceito Diálogo

Freud Pulsão de vida e morte Necessidade x vontade

Jung A sombra O mal que habita em mim

Klein Inveja primária O desejo de ser mal

Winnicott Verdadeiro self O barco à deriva


5.4. Com a Música


Artista Obra Diálogo

Bob Marley "I Know" A ira divina

Tribo de Jah "Eu Sei" Versão brasileira

Bob Marley "Redemption Song" Libertação

Edson Gomes "Cativeiro" A opressão


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6. REDE INTERTEXTUAL INTERNA


Poema Conexão

#007 - Escravos da Aflição Mesmo verso de Bob Marley

#009 - Pelo Mar Sem Fim O barco à deriva

#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu O abismo

#015 - Eu Estou Vazio A negritude, o conflito

#018 - Abismo Sem Fim A queda

#023 - Vazio O vício

#025 - Santo Veneno O paradoxo bem/mal

#041 - Soneto da Inconformidade A inconformidade negra

#045 - O Sol A dualidade


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7. VIRTUDES DO POEMA


Virtude Descrição

Técnica Estrutura dual; imagens precisas; referências eruditas

Filosófica A questão do ser sobre o ter

Espiritual O plexo solar, a energia vital

Xamânica A figura do xamã negro

Musical Referência precisa a Bob Marley

Humana O conflito real da dependência química

Poética "O bem e o mal estão em mim / Por isso vivo nesse abismo sem fim"


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8. SÍNTESE CRÍTICA


"Quem sabe... Ser?" é o poema da hipótese redentora e do conflito vital. O título propõe que talvez um dia o "ser" prevaleça sobre o "ter" — que a glória da paz substitua a glória do poder.


A história é revisitada: ditadores auspiciosos, impérios construídos sobre intrigas e mentiras, destruição da natureza. O mal se encarna e age.


Mas o eu lírico não está fora desse mal. Ele também carrega o conflito: a necessidade de fazer o bem contra a vontade de fazer o mal. E esse conflito tem raízes concretas — a dependência química, suas repercussões familiares, o abismo existencial que ela cria.


A imagem do bruxismo — serralhar os dentes com raiva — e do xilrear — praguejar em voz baixa — retrata a ira contida, a tensão que não se resolve.


O xamã negro surge como possibilidade de integração. Herdeiro de tradições ancestrais, aquele que transita entre mundos, talvez possa curar.


Mas o conflito persiste. O barco está à deriva. O mar não tem fim.


E o pedido final — a Bob Marley, a Deus — é que a fúria não caia sobre ele. Que a ira divina, a ira histórica, a ira contida em seus próprios dentes, não se abata.


O poema #046 é, assim, uma das mais complexas e profundas meditações sobre o conflito humano, a herança histórica e a possibilidade de redenção.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.


BÍBLIA. I Samuel. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


BÍBLIA. Romanos. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.


JUNG, Carl. Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2011.


KIERKEGAARD, Søren. Ou Isto ou Aquilo. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


MARLEY, Bob. I Know. In: Bob Marley & The Wailers. Island Records.


NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


TRIBO DE JAH. Eu Sei. In: Tributo a Bob Marley. Independente.


LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]


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CRÉDITOS AUTORAIS


Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)

LÉLLIS, PHS.


Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)

Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.


Contatos:

📧 pedrimpescador@gmail.com

📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078

🌐 https://pedrimpescador.blogspot.com

📍 Vila Velha/ES - Brasil


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Nota: Esta é a trigésima sexta análise da série. O poema #046 propõe a hipótese de um mundo onde o "ser" prevaleça sobre o "ter", enquanto mergulha no conflito vital entre a necessidade do bem e a vontade do mal — conflito enraizado na experiência concreta da dependência química. O xamã negro, o bruxismo, o xilrear e Bob Marley compõem uma das tessituras mais ricas de toda a obra.

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FICHA TÉCNICA DO POEMA


Elemento Descrição

Título Quem sabe... Ser?

Data 17/11/2025

Posição #046 (de 55)

Contexto Novembro de 2025, mesmo dia de "O Sol" (#045)

Versos 30

Tom Reflexivo, dual, conflituoso, profético

Estrutura 7 estrofes irregulares

Assinatura Bob Marley / Não deixe a fúria cair sobre mim


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TEXTO COMPLETO DO POEMA


```

Quem sabe... Ser?


Quem sabe um dia enfim

Nós tornaremos gloriosos

Redimidos dessa saga

De ditadores auspiciosos?


Muitos quiseram reinar

Com intrigas mentiras fofocas e dissoluções

Dissolvecoes e rompeduras de contratos

Infiéis em gestos palavras e intenções


São o mal encarnado na terra

Destruíram serras flores belas e até a atmosfera

Malditos sejam em silêncio

Mas me arrependo até disto


Queria ser mal e feio contundente


Entre meus dentes serralhiro xilrear

Como um grou de afrodescendentes

Um xamã a xamanizar


Segura o Deus minha vital

Necessidade de fazer o bem

Versus vontade de fazer o mal

O bem e o mal estão em mim

Por isso vivo nesse abismo sem fim


Como um barco que está a derivar

Perdido pelo mar sem fim.


Sem querer a maré do tempo mostre a tua ira

Cantou Bob Marley

Não deixe a fúria cair sobre mim

```


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ANÁLISE CRÍTICA


1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS


1.1. O Título e a Hipótese do Ser


"Quem sabe... Ser?" — o título propõe uma hipótese fundamental: quem sabe um dia o "ser" se tornará mais importante que o "ter"? A pergunta suspensa pelas reticências aponta para uma transformação possível: a valorização da essência sobre a posse, da identidade sobre a acumulação.


Virtude técnica: As reticências no título já estabelecem o tom especulativo, a possibilidade aberta de um futuro onde o ser prevaleça.


1.2. A Estrutura do Conflito


O poema é construído sobre oposições que refletem a dualidade humana:


1. A esperança de redenção histórica (versos 1-4) — gloriosos, redimidos

2. A maldade dos que detêm poder (versos 5-8) — intrigas, mentiras

3. A destruição causada pelos poderosos (versos 9-12) — mal encarnado

4. O desejo de ser contundente (versos 13-16) — "queria ser mal e feio contundente"

5. O bruxismo e a maldição silenciosa (versos 17-20) — serralhar, xilrear

6. O xamã negro (versos 21-24) — grou de afrodescendentes

7. O conflito vital (versos 25-28) — necessidade de fazer o bem versus vontade de fazer o mal

8. O barco à deriva (versos 29-32) — mar sem fim

9. Bob Marley (versos 33-35) — a fúria contida


1.3. A Repetição do Mar


"Como um barco que está a derivar / Perdido pelo mar sem fim."


A imagem do barco à deriva (de #009, #018, #034, #037) retorna. O mar sem fim é o abismo, a vida, a espera — e também o cenário onde a ira divina pode se manifestar.


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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS


2.1. A Esperança de Redenção Histórica (Versos 1-4)


"Quem sabe um dia enfim / Nós tornaremos gloriosos / Redimidos dessa saga / De ditadores auspiciosos?"


A pergunta abre o poema com uma esperança condicional. "Quem sabe" — talvez um dia sejamos gloriosos, redimidos da longa história de opressão.


Os ditadores auspiciosos são aqueles que se anunciam como favoráveis, promissores, mas exercem o poder de forma tirânica. Não são apenas governantes — são aqueles que usam sua inteligência e astúcia para praticar o mal através da ditadura. A referência abrange os "bastidores de impérios" e os pseudo-presidentes que, em diversos países, se revelam verdadeiros ditadores.


"Gloriosos" significa ter glória, honra, paz — ser da paz. Essa é a verdadeira glória: não o poder, mas a paz.


2.2. A Maldade dos Poderosos (Versos 5-8)


"Muitos quiseram reinar / Com intrigas mentiras fofocas e dissoluções"


Os que quiseram reinar usaram os piores meios: intrigas, mentiras, fofocas, dissoluções (desagregação, destruição). São aqueles que, na história, construíram impérios à custa de outros povos.


"Dissolvecoes e rompeduras de contratos / Infiéis em gestos palavras e intenções"


"Dissolvecoes" (neologismo) — dissoluções, desmanches. Romper contratos, ser infiel em tudo — gestos, palavras, intenções. É o retrato daqueles que detêm o poder e o usam para oprimir.


2.3. A Destruição Causada (Versos 9-12)


"São o mal encarnado na terra / Destruíram serras flores belas e até a atmosfera"


A maldade se encarna e age concretamente: destruir serras (mineração predatória), flores (natureza), atmosfera (crise climática). A crítica ecológica retorna, agora conectada à ação dos poderosos.


"Malditos sejam em silêncio / Mas me arrependo até disto"


O desejo de amaldiçoar os maus — mas o arrependimento vem logo. Até a maldição é problemática para quem tem o bem e o mal dentro de si.


2.4. O Desejo de Ser Contundente (Versos 13-16)


"Queria ser mal e feio contundente"


Este verso é revelador. O eu lírico reconhece que o mal também está nele, e a feiura talvez já seja sua realidade. Mas ser contundente é diferente — é ter argumentos com fundamento, é agir na prática com procedimentos que fazem sentido, que dizem respeito ao real. A contundência é a capacidade de impactar, de fazer valer a palavra e a ação.


Seria mais fácil ter essa clareza, essa potência de argumento e ação, do que viver na ambiguidade.


2.5. O Bruxismo e a Maldição Silenciosa (Versos 17-20)


"Entre meus dentes serralhiro xilrear"


Aqui se desdobra uma imagem complexa e precisa:


· Serralhar (ou serralhirar) — é o movimento do maxilar com raiva, o bruxismo que antecede o ranger de dentes. Enquanto o ranger ocorre quando o esmalte já está carcomido e o atrito interno produz som, o serralhar é o movimento repetitivo, a tensão que prepara a destruição.

· Xilrear — é um tipo de praguejar em voz baixa, como Ana no tabernáculo que balbuciava palavras (I Samuel 1,13). É a maldição murmurada, a reclamação que não se torna grito, mas que carrega toda a ira contida.


Entre os dentes, ele serralha e xilrea — a raiva se manifesta no corpo e na palavra abafada.


2.6. O Xamã Negro (Versos 21-24)


"Como um grou de afrodescendentes / Um xamã a xamanizar"


A grou (ou gurar) é uma ave — talvez uma referência a uma espécie específica ou a uma figura simbólica. "Grou de afrodescendentes" conecta a ave à ancestralidade negra, à sabedoria dos povos africanos.


O xamã a xamanizar é aquele que transita entre mundos, que cura, que invoca, que media. O eu lírico se vê como xamã — e como xamã negro, herdeiro de tradições ancestrais.


2.7. O Conflito Vital (Versos 25-28)


"Segura o Deus minha vital / Necessidade de fazer o bem / Versus vontade de fazer o mal"


A palavra "vital" é chave. Refere-se ao plexo solar — centro de energia vital nos chakras, fonte do impulso de vida. "Segura o Deus minha vital" é um pedido: que Deus sustente sua energia vital, sua força interior.


O conflito se explicita:


· Necessidade de fazer o bem — um impulso vital, uma urgência interior

· Vontade de fazer o mal — também vital, também presente


A necessidade (mais forte que a vontade) de fazer o bem coexiste com a vontade (desejo, impulso) de fazer o mal. O bem e o mal habitam o mesmo ser.


"O bem e o mal estão em mim / Por isso vivo nesse abismo sem fim"


A coexistência dos opostos dentro de si é a causa do abismo. E esse abismo tem uma origem concreta: os conflitos existenciais provocados pela dependência química e suas repercussões negativas em diversos âmbitos da vida, a começar pelo familiar. O abismo não é abstrato — é vivido, sentido, sofrido.


2.8. O Barco à Deriva (Versos 29-30)


"Como um barco que está a derivar / Perdido pelo mar sem fim."


A imagem clássica (de #009) retorna. O barco à deriva é a vida sem direção, a alma dividida, o ser que não encontra porto.


2.9. Bob Marley e a Ira Contida (Versos 31-35)


"Sem querer a maré do tempo mostre a tua ira / Cantou Bob Marley / Não deixe a fúria cair sobre mim"


A referência é à canção "I Know" de Bob Marley, traduzida como "Eu Sei" por Tribo de Jah no álbum Tributo a Bob Marley. Os versos originais falam sobre não desejar que a ira divina se manifeste, sobre pedir proteção contra a fúria.


A mesma passagem aparece no poema #007 ("Escravos da Aflição"), criando uma conexão interna entre os dois poemas. A fúria — divina, histórica, cósmica — pode cair sobre ele. O pedido é que isso não aconteça.


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3. O CONFLITO VITAL E O ABISMO


O poema atinge sua profundidade máxima na explicitação do conflito entre necessidade e vontade:


Força Direção Origem

Necessidade Fazer o bem Vital, essencial

Vontade Fazer o mal Também vital


A dependência química é o pano de fundo concreto desse conflito. As repercussões negativas — familiares, sociais, existenciais — criam o abismo onde o eu lírico habita.


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4. O XAMÃ NEGRO E A SABEDORIA ANCESTRAL


A figura do xamã negro conecta o poema a tradições ancestrais:


Elemento Significado

Grou Ave simbólica, sabedoria

Afrodescendentes Herança africana

Xamã Mediador, curador

Xamanizar Exercer a função xamânica


O eu lírico não apenas sofre o conflito — ele também é aquele que pode curar, que pode transitar entre mundos, que pode integrar os opostos.


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5. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES


5.1. Com a Filosofia


Filósofo Conceito Diálogo

Nietzsche Além do bem e do mal A superação da dualidade

Kierkegaard Ou isto ou aquilo A angústia da escolha

Paulo O bem que quero não faço Romanos 7

Agostinho O conflito das duas vontades O bem e o mal em mim


5.2. Com a Espiritualidade Africana


Tradição Conceito Diálogo

Candomblé Axé Energia vital

Xamanismo Viagem espiritual Xamã a xamanizar

Ancestralidade Sabedoria dos mais velhos Grou de afrodescendentes

Curandeirismo Cura Segura o Deus


5.3. Com a Psicologia do Vício


Psicólogo Conceito Diálogo

Freud Pulsão de vida e morte Necessidade x vontade

Jung A sombra O mal que habita em mim

Klein Inveja primária O desejo de ser mal

Winnicott Verdadeiro self O barco à deriva


5.4. Com a Música


Artista Obra Diálogo

Bob Marley "I Know" A ira divina

Tribo de Jah "Eu Sei" Versão brasileira

Bob Marley "Redemption Song" Libertação

Edson Gomes "Cativeiro" A opressão


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6. REDE INTERTEXTUAL INTERNA


Poema Conexão

#007 - Escravos da Aflição Mesmo verso de Bob Marley

#009 - Pelo Mar Sem Fim O barco à deriva

#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu O abismo

#015 - Eu Estou Vazio A negritude, o conflito

#018 - Abismo Sem Fim A queda

#023 - Vazio O vício

#025 - Santo Veneno O paradoxo bem/mal

#041 - Soneto da Inconformidade A inconformidade negra

#045 - O Sol A dualidade


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7. VIRTUDES DO POEMA


Virtude Descrição

Técnica Estrutura dual; imagens precisas; referências eruditas

Filosófica A questão do ser sobre o ter

Espiritual O plexo solar, a energia vital

Xamânica A figura do xamã negro

Musical Referência precisa a Bob Marley

Humana O conflito real da dependência química

Poética "O bem e o mal estão em mim / Por isso vivo nesse abismo sem fim"


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8. SÍNTESE CRÍTICA


"Quem sabe... Ser?" é o poema da hipótese redentora e do conflito vital. O título propõe que talvez um dia o "ser" prevaleça sobre o "ter" — que a glória da paz substitua a glória do poder.


A história é revisitada: ditadores auspiciosos, impérios construídos sobre intrigas e mentiras, destruição da natureza. O mal se encarna e age.


Mas o eu lírico não está fora desse mal. Ele também carrega o conflito: a necessidade de fazer o bem contra a vontade de fazer o mal. E esse conflito tem raízes concretas — a dependência química, suas repercussões familiares, o abismo existencial que ela cria.


A imagem do bruxismo — serralhar os dentes com raiva — e do xilrear — praguejar em voz baixa — retrata a ira contida, a tensão que não se resolve.


O xamã negro surge como possibilidade de integração. Herdeiro de tradições ancestrais, aquele que transita entre mundos, talvez possa curar.


Mas o conflito persiste. O barco está à deriva. O mar não tem fim.


E o pedido final — a Bob Marley, a Deus — é que a fúria não caia sobre ele. Que a ira divina, a ira histórica, a ira contida em seus próprios dentes, não se abata.


O poema #046 é, assim, uma das mais complexas e profundas meditações sobre o conflito humano, a herança histórica e a possibilidade de redenção.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.


BÍBLIA. I Samuel. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


BÍBLIA. Romanos. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.


JUNG, Carl. Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2011.


KIERKEGAARD, Søren. Ou Isto ou Aquilo. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


MARLEY, Bob. I Know. In: Bob Marley & The Wailers. Island Records.


NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


TRIBO DE JAH. Eu Sei. In: Tributo a Bob Marley. Independente.


LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]


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CRÉDITOS AUTORAIS


Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)

LÉLLIS, PHS.


Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)

Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.


Contatos:

📧 pedrimpescador@gmail.com

📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078

🌐 https://pedrimpescador.blogspot.com

📍 Vila Velha/ES - Brasil


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Nota: Esta é a trigésima sexta análise da série. O poema #046 propõe a hipótese de um mundo onde o "ser" prevaleça sobre o "ter", enquanto mergulha no conflito vital entre a necessidade do bem e a vontade do mal — conflito enraizado na experiência concreta da dependência química. O xamã negro, o bruxismo, o xilrear e Bob Marley compõem uma das tessituras mais ricas de toda a obra.

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