ANÁLISE POEMA #034 - "PRECISO" (12/07/2025)

 ANÁLISE POEMA #034 - "PRECISO" (12/07/2025)


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FICHA TÉCNICA DO POEMA


Elemento Descrição

Título Preciso

Data 12/07/2025

Posição #034 (de 55)

Contexto Julho de 2025, mesmo dia de "Distante" (#031), "Transpassado Tempo" (#032) e "Pouco Tempo" (#033)

Versos 64

Tom Litânico, desolado, fragmentado, esperançoso

Estrutura 16 estrofes irregulares

Assinatura #12/07/2025


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TEXTO COMPLETO DO POEMA


```

Preciso


Eu estou triste

Sem cor

Sem vida

Sem luz


Sem sol

Sem calor

Sem água

Nem vento


A todo momento

Suspiro


A todo momento

Insisto


A todo momento

Vislumbro


Espero, olho da janela

Mas ele não chega


Ele não vem

E eu TB não vou


As louças se acumularam

Pq não me ânimo em cozinhar


Se tomo banho

É o mínimo


E se respiro

É por respirar


Ele está longe

Eu estou sem motivos


Como um barco

A derivar.


Estou me recuperando

Do tombo


Estou me recuperando

Da gripe


Estou me recuperando

Da droga


Que tanto me aflige


Sinto meus pulmões queimando

Existe outra dor em meu peito


Esperando meus amores

Esperando ser aceito


Solidão caminhar

Espero um dia

Poder chegar


Queria um dia sentar ao teu lado

E gordos e conformados

Podermos rir


Espero que algo tenha mudado

Até então


Nada ficou no lugar

Eu quero quebrar essas xícaras


Quando o segundo sol chegar

E amar até quando Deus quiser.


Turbilhões

Furações

Vórtice

Minha mente gira

Como um ventilador


E aí que por fim no fim e enfim

Dos cegos do castelo me despeço

E vou.


Vamos fugir?

Mas para onde irei

Se só tu tens as palavras

De vida eterna


Tanto tempo esperei

E o Senhor já tinha revelado

Que eu segurava a direção do ônibus

E esperava Matheus ao meu lado.


Estou como um jarro quebrado

Espelho estilhaçado

Cigarro apagado

Maconha mofada.


Papel usado

Caneta sem tinta

Quadro rasgado

Castelo em ruínas.


Não há palavras

Nem sensações

Nem sentimentos

Nem emoções


O dia continua nublado

E eu continuo a esperar

O ônibus está ligado mas eu não vou

Sem Matheus ao meu lado.


#12/07/2025

```


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ANÁLISE CRÍTICA


1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS


1.1. O Título e a Necessidade


"Preciso" — a palavra é ambígua:


· Verbo: "Eu preciso" (de Matheus, de sentido, de vida)

· Adjetivo: "É preciso" (necessário, urgente)

· Substantivo: "O preciso" (o exato, o necessário)


Virtude técnica: Uma palavra que condensa a urgência, a falta e a exatidão da dor.


1.2. A Estrutura Litânica


O poema é construído como uma litania da falta:


1. Lista de ausências (versos 1-8) — sem cor, vida, luz, sol, calor, água, vento

2. Ações mínimas (versos 9-20) — suspiro, insisto, vislumbro, espero

3. O cotidiano parado (versos 21-28) — louças acumuladas, banho mínimo

4. A recuperação (versos 29-40) — do tombo, da gripe, da droga

5. A espera (versos 41-48) — esperando ser aceito

6. A imaginação do futuro (versos 49-56) — o segundo sol

7. O caos mental (versos 57-60) — turbilhões, furacões

8. A despedida (versos 61-64) — me despeço e vou

9. A pergunta (versos 65-68) — para onde irei?

10. A revelação (versos 69-72) — o ônibus e Matheus

11. A lista do quebrado (versos 73-80) — jarro, espelho, cigarro, papel

12. O vazio final (versos 81-88) — sem palavras, sem sensações

13. A conclusão (versos 89-92) — o ônibus ligado, mas eu não vou


1.3. A Progressão do Esvaziamento


O poema segue um movimento de esvaziamento progressivo:


Estágio Descrição

Perda de elementos externos cor, vida, luz, sol, calor

Perda de ações significativas cozinhar, banhar-se

Perda de sentido respirar por respirar

Perda de objetos jarro quebrado, espelho estilhaçado

Perda de palavras "não há palavras"

Perda de si "sem Matheus ao meu lado"


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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS


2.1. A Lista de Ausências (Versos 1-8)


"Eu estou triste / Sem cor / Sem vida / Sem luz"


O poema abre com a enumeração do que falta. A tristeza é o contexto, e a ausência se desdobra em elementos fundamentais: cor, vida, luz.


"Sem sol / Sem calor / Sem água / Nem vento"


A progressão é cósmica: sol (fonte de energia), calor (vida), água (essencial), vento (movimento). Nada disso está presente.


2.2. A Insistência no Vazio (Versos 9-16)


"A todo momento / Suspiro // A todo momento / Insisto // A todo momento / Vislumbro"


Três ações contrastantes:


· Suspiro — cansaço, alívio, resignação

· Insisto — persistência, teimosia

· Vislumbro — esperança, visão do futuro


Mesmo no vazio, ele suspira, insiste, vislumbra.


2.3. A Janela e a Espera (Versos 17-20)


"Espero, olho da janela / Mas ele não chega // Ele não vem / E eu TB não vou"


A janela é o lugar da espera (como em #031). Matheus não chega. E ele também não vai — paralisia.


2.4. O Cotidiano Parado (Versos 21-28)


"As louças se acumularam / Pq não me ânimo em cozinhar"


O cotidiano é o termômetro da alma. Louças acumuladas = vida parada.


"Se tomo banho / É o mínimo // E se respiro / É por respirar"


O mínimo vital: banho por obrigação, respiração por automatismo. Eco de #022 ("Só me resta respirar").


2.5. O Barco à Deriva (Versos 29-32)


"Como um barco / A derivar."


A imagem do barco retorna de #009 e #037. A deriva é a condição sem Matheus.


2.6. A Recuperação Múltipla (Versos 33-40)


"Estou me recuperando / Do tombo // Estou me recuperando / Da gripe // Estou me recuperando / Da droga"


A recuperação é múltipla — físico, emocional, químico. Todas as dimensões do ser estão em processo de cura.


"Que tanto me aflige"


A droga é nomeada como aquilo que aflige. O vício é parte da jornada.


2.7. A Dor no Peito (Versos 41-44)


"Sinto meus pulmões queimando / Existe outra dor em meu peito"


A dor física (pulmões) e a dor emocional (peito) se encontram. O corpo fala.


2.8. A Espera por Aceitação (Versos 45-48)


"Esperando meus amores / Esperando ser aceito"


A espera é por amores (plural) e por aceitação. Ser aceito por Matheus, por Deus, por si mesmo.


2.9. O Sonho do Futuro (Versos 49-56)


"Queria um dia sentar ao teu lado / E gordos e conformados / Podermos rir"


Imagem tocante de um futuro simples: sentar ao lado, rir, estar conformado (em paz) com a vida.


"Espero que algo tenha mudado / Até então"


A esperança de que o tempo traga mudança.


"Nada ficou no lugar / Eu quero quebrar essas xícaras"


A vontade de destruir o que não se encaixa. As xícaras são o cotidiano que não funciona.


2.10. O Segundo Sol (Versos 57-58)


"Quando o segundo sol chegar / E amar até quando Deus quiser."


Referência à música de Nando Reis ("Segundo Sol"). O segundo sol é:


· O reencontro

· A nova chance

· O fim da espera


2.11. O Caos Mental (Versos 59-62)


"Turbilhões / Furacões / Vórtice / Minha mente gira / Como um ventilador"


A mente em caos — turbilhões, furacões, vórtice. A imagem do ventilador é doméstica e perturbadora: gira sem parar, sem direção.


2.12. A Despedida dos Cegos (Versos 63-64)


"Dos cegos do castelo me despeço / E vou."


Os "cegos do castelo" são aqueles que não veem, que estão presos em suas fortalezas. Ele se despede e vai.


2.13. A Pergunta a Pedro (Versos 65-68)


"Vamos fugir? / Mas para onde irei / Se só tu tens as palavras / De vida eterna"


Referência direta a João 6,68: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna". A pergunta é dirigida a Jesus — ou a Matheus?


2.14. A Revelação do Ônibus (Versos 69-72)


"E o Senhor já tinha revelado / Que eu segurava a direção do ônibus / E esperava Matheus ao meu lado."


Esta é uma das imagens mais belas do poema. A revelação divina: ele está no comando (direção do ônibus), mas espera Matheus ao lado. A viagem não começa sem ele.


2.15. A Lista do Quebrado (Versos 73-80)


"Estou como um jarro quebrado / Espelho estilhaçado / Cigarro apagado / Maconha mofada."


Cada objeto é uma metáfora do eu:


Objeto Significado

Jarro quebrado Não pode mais conter

Espelho estilhaçado Não reflete mais

Cigarro apagado Sem fogo, sem vida

Maconha mofada O prazer estragado

Papel usado Descartado

Caneta sem tinta Sem palavra

Quadro rasgado Arte destruída

Castelo em ruínas O eu em pedaços


2.16. O Vazio Final (Versos 81-88)


"Não há palavras / Nem sensações / Nem sentimentos / Nem emoções"


O esvaziamento é total. Nem palavras restam — o que é irônico, pois o poema existe.


2.17. A Conclusão (Versos 89-92)


"O dia continua nublado / E eu continuo a esperar / O ônibus está ligado mas eu não vou / Sem Matheus ao meu lado."


O poema termina como começou: na espera. O ônibus está ligado, pronto para partir. Mas ele não vai. A viagem não tem sentido sem Matheus.


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3. A METÁFORA DO ÔNIBUS


A imagem do ônibus é uma das mais originais da obra:


Elemento Significado

Ônibus A vida, a jornada, o destino

Direção Controle, escolha

Ligado Pronto, em funcionamento

Não vou Paralisia, escolha

Matheus ao lado A condição para a viagem


Interpretação: O eu lírico tem o controle (direção), o veículo está pronto (ligado), mas a viagem só começa quando Matheus estiver ao lado. A espera é ativa — ele segura o volante, mas não parte.


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4. A INTERtextualidade Bíblica


O poema dialoga com várias passagens bíblicas:


Referência Verso Significado

João 6,68 "só tu tens as palavras de vida eterna" A pergunta de Pedro a Jesus

Jeremias 18 O jarro quebrado A fragilidade humana

Salmo 31 "Nas tuas mãos entrego o meu espírito" Entrega

Apocalipse O segundo sol? Escatologia


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5. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES


5.1. Com a Filosofia


Filósofo Conceito Diálogo

Heidegger O ser-para-a-morte A espera como modo de ser

Sartre A liberdade "Segurava a direção do ônibus"

Levinas O rosto do outro Matheus como condição

Jaspers Situações-limite A recuperação múltipla


5.2. Com a Psicanálise


Psicanalista Conceito Diálogo

Freud Luto e melancolia A perda de Matheus

Winnicott Dependência "Sem Matheus ao meu lado"

Lacan O objeto a O que falta

Klein Posição depressiva Jarro quebrado


5.3. Com a Teologia


Teólogo Conceito Diálogo

Agostinho O Deus ausente A espera

Paulo A nova criatura "Me recuperando"

João da Cruz Noite escura O vazio

Moltmann Teologia da esperança O segundo sol


5.4. Com a Literatura


Escritor Obra Diálogo

Clarice Lispector "A Paixão segundo G.H." O jarro quebrado

Drummond "No Meio do Caminho" A espera

Bandeira "Vou-me Embora pra Pasárgada" A fuga

Nando Reis "Segundo Sol" A música como referência


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6. REDE INTERTEXTUAL INTERNA


Poema Conexão

#009 - Pelo Mar Sem Fim O barco à deriva

#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu O vazio

#015 - Eu Estou Vazio A lista de ausências

#016 - Sem Medo - Com Matheus A presença que falta

#018 - Abismo Sem Fim A espera

#022 - Só me Resta Respirar Respirar por respirar

#023 - Vazio A recuperação

#031 - Distante A ausência de Matheus

#032 - Transpassado Tempo O ônibus?


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7. VIRTUDES DO POEMA


Virtude Descrição

Técnica Litania da falta; lista do quebrado; progressão do esvaziamento

Filosófica A espera como condição existencial

Teológica A revelação do ônibus e a pergunta a Pedro

Humana A recuperação do tombo, da gripe, da droga

Poética A imagem do jarro quebrado, do espelho estilhaçado

Relacional Matheus como condição para a viagem


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8. SÍNTESE CRÍTICA


"Preciso" é o poema da espera ativa. O eu lírico está parado, mas não inerte. Segura a direção do ônibus, o veículo está ligado — mas a viagem não começa sem Matheus.


A estrutura litânica conduz o leitor por um caminho de esvaziamento progressivo: primeiro as cores, depois as ações, depois os objetos, depois as palavras. No fim, resta apenas a espera.


A lista do quebrado é uma das mais poderosas da obra: jarro, espelho, cigarro, maconha, papel, caneta, quadro, castelo. Cada objeto é uma parte do eu que se desfez.


A revelação do ônibus é o centro teológico do poema. O Senhor revelou que ele segura a direção — ele tem o controle — mas espera Matheus ao lado. A viagem da vida só começa quando o outro está presente.


A pergunta final — "para onde irei?" — ecoa a pergunta de Pedro a Jesus. Mas aqui, o destinatário é ambíguo: Jesus? Matheus? Ambos?


E a conclusão é arrasadora: o ônibus está ligado, mas ele não vai. Sem Matheus, a viagem não tem sentido. A espera continua.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.


BÍBLIA. Evangelho de João. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Campinas: Editora Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.


LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.


MOLTMANN, Jürgen. Teologia da Esperança. São Paulo: Teológica, 2003.


WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 2005.


LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]


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CRÉDITOS AUTORAIS


Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)

LÉLLIS, PHS.


Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)

Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.


Contatos:

📧 pedrimpescador@gmail.com

📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078

🌐 https://pedrimpescador.blogspot.com

📍 Vila Velha/ES - Brasil


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Nota: Esta é a vigésima quarta análise da série. O poema #034 é o mais longo do dia 12/07/2025 — uma litania da espera que culmina na imagem poderosa do ônibus ligado, mas imóvel, aguardando Matheus. A lista do quebrado é uma das passagens mais comoventes de toda a obra.

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