ANÁLISE POEMA #019 - "NÃO FAZ SENTIDO" (09/04/2025)

 ANÁLISE POEMA #019 - "NÃO FAZ SENTIDO" (09/04/2025)


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FICHA TÉCNICA DO POEMA


Elemento Descrição

Título Não Faz Sentido

Data 09/04/2025

Posição #019 (de 55)

Contexto Abril de 2025, um dia após "Abismo Sem Fim"

Versos 32

Tom Niilista, interrogativo, repetitivo, paradoxal

Estrutura 8 estrofes irregulares com refrão interno


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TEXTO COMPLETO DO POEMA


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Não Faz Sentido


Não faz sentido viver

Não faz sentido sorrir

Não faz sentido comer

E nem os olhos abrir


E... Nem o respirar

E... Nem o amar

E... Nem o sentir

E... Nem o esperar


Será que quem sabe crer

Quem sabe até meditar

A vida esvaecer

Se vale a pena amar


O que Será que Será

Porque somente eu sei

O quanto que eu sofri

Pelas ruas que andei


Quem sabe a pena sorrir?

Quem sabe a pena amar

Se à pena eu amo

Posso admirar


O sol que vai nascer

O ovo que vai chocar

Uma rosa a se abrir

A lua a enluarar


Tantos processos eu sei

O quanto que eu sofri

Se sem destino Vivi

São esquinas que passei


Quem sabe vale a pena

A pena fazer valer


Sorrir

Sou rei.

```


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ANÁLISE CRÍTICA


1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS


1.1. A Negação em Série


O poema abre com uma lista de negações que atinge todos os aspectos da vida:


Ação Sentido Negado

Viver Existência

Sorrir Alegria

Comer Sustento

Abrir os olhos Percepção

Respirar Vida biológica

Amar Afeto

Sentir Emoção

Esperar Futuro


Virtude técnica: A anáfora ("Não faz sentido", "E... Nem") cria um ritmo de aniquilação. Cada verso remove uma camada do sentido da vida.


1.2. Os "E..." Suspensos


"E... Nem o respirar / E... Nem o amar"


As reticências após o "E" criam uma pausa dramática. É como se o eu lírico fosse listar algo positivo, mas a negação viesse depois. A estrutura mimetiza a hesitação entre a esperança e o desespero.


1.3. A Progressão para a Afirmação


O poema não permanece na negação. Ele caminha:


1. Negação total (versos 1-8)

2. Perguntas sobre o sentido (versos 9-16)

3. Dúvida sobre o sofrimento (versos 17-20)

4. Abertura para a beleza (versos 21-24)

5. Retorno ao sofrimento (versos 25-28)

6. Afirmação paradoxal (versos 29-32)


Observação crítica: Esta estrutura dialética é típica da poesia de Pedrim: a tese (negação), a antítese (pergunta) e a síntese (afirmação) não se resolvem completamente, mas criam uma tensão produtiva.


1.4. O Jogo de Palavras com "Pena"


"Quem sabe a pena sorrir? / Quem sabe a pena amar / Se à pena eu amo"


"Pena" tem múltiplos significados:


Significado Contexto

Pena (sofrimento) "à pena eu amo" — amo apesar da dor

Pena (valer a pena) "Quem sabe a pena sorrir" — vale a pena sorrir?

Pena (instrumento de escrita) "A pena fazer valer" — a escrita como redenção


Virtude semântica: A polissemia permite que o poema condense vários significados numa mesma palavra, criando densidade poética.


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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS


2.1. A Negação Radical (Versos 1-8)


"Não faz sentido viver / Não faz sentido sorrir"


O poema abre com uma negação total do sentido da vida. Não é apenas tristeza — é a constatação de que nada tem propósito.


Filosofia: Camus (2004, p. 45), em O Mito de Sísifo, define o absurdo como o confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio do mundo. Pedrim vive esse confronto em cada verso.


Diferença crucial: Camus conclui que é preciso imaginar Sísifo feliz. Pedrim, neste momento do poema, ainda não consegue essa afirmação. Ele está no puro absurdo, sem a revolta ou a aceitação.


"E... Nem o respirar" — A respiração é o ato mais involuntário, mais básico. Negar sentido a ela é negar a própria condição de estar vivo.


2.2. A Dúvida Metódica (Versos 9-12)


"Será que quem sabe crer / Quem sabe até meditar / A vida esvaecer / Se vale a pena amar"


Aqui o poema introduz a dúvida. "Será que" abre a possibilidade de que a fé, a meditação, o amor possam ter sentido — mas a pergunta fica em aberto.


Teologia: Kierkegaard (2010, p. 189) descreve o "salto da fé" como um ato irracional, uma aposta no absurdo. Pedrim pergunta: será que quem crê encontra sentido? A resposta não é dada.


2.3. O Sofrimento como Testemunho (Versos 13-16)


"Porque somente eu sei / O quanto que eu sofri / Pelas ruas que andei"


Esta estrofe afirma a singularidade do sofrimento. Ninguém sabe o que ele passou — somente ele.


Fenomenologia: A dor é intransferível. Por mais que se tente comunicar, o outro nunca sente exatamente o mesmo. Pedrim afirma essa solidão fundamental do sofrer.


"Pelas ruas que andei" — A rua como espaço de errância, de busca, de perda. A imagem volta de #014 e #037, criando uma geografia da dor.


2.4. A Pena e o Amor (Versos 17-20)


"Quem sabe a pena sorrir? / Quem sabe a pena amar / Se à pena eu amo / Posso admirar"


O jogo com "pena" atinge aqui sua máxima complexidade. Amar "à pena" é amar apesar da dor, ou através da dor, ou com a dor como condição.


Filosofia do amor: Nietzsche (2001, p. 234) afirmava que o amor é sempre amor ao que nos faz sofrer. Pedrim intui essa verdade: ama-se à pena, ama-se com a pena, ama-se pela pena.


2.5. A Abertura para o Belo (Versos 21-24)


"O sol que vai nascer / O ovo que vai chocar / Uma rosa a se abrir / A lua a enluarar"


Repentinamente, o poema se abre para a beleza do mundo. São imagens de nascimento, de abertura, de ciclo:


· Sol — luz, calor, vida

· Ovo — potencial, espera, nascimento

· Rosa — beleza, fragilidade, desabrochar

· Lua — ciclo, mistério, poesia


Observação crítica: Esta estrofe é um respiro no meio da negação. Ela mostra que o eu lírico ainda vê a beleza, mesmo que não sinta que ela faça sentido.


2.6. O Retorno ao Sofrimento (Versos 25-28)


"Tantos processos eu sei / O quanto que eu sofri / Se sem destino Vivi / São esquinas que passei"


A beleza não anula a dor. O eu lírico volta ao sofrimento, agora com uma imagem nova: as esquinas.


Simbolismo: A esquina é o lugar da escolha, do encontro, do acaso. Viver "sem destino" é vagar de esquina em esquina, sem saber para onde ir.


2.7. A Afirmação Final (Versos 29-32)


"Quem sabe vale a pena / A pena fazer valer // Sorrir / Sou rei."


O poema termina com uma das afirmações mais poderosas de toda a obra.


· "A pena fazer valer" — a escrita (pena) pode dar valor à pena (sofrimento)

· "Sorrir" — o ato simples, negado no início, agora possível

· "Sou rei" — a afirmação da realeza interior, que será desenvolvida em #053


Progressão: O poema começa com "não faz sentido" e termina com "sou rei". É uma jornada em miniatura dentro de 32 versos.


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3. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES


3.1. Com a Filosofia do Absurdo


Filósofo Conceito Diálogo

Camus O absurdo A constatação de que a vida não tem sentido

Kierkegaard O salto da fé A pergunta "será que quem sabe crer?"

Sartre A liberdade "Sorrir / Sou rei" como afirmação da liberdade

Nietzsche O além-do-homem A descoberta da realeza interior


3.2. Com a Poesia


Poeta Obra Diálogo

Drummond "No Meio do Caminho" A repetição como forma de lidar com o trauma

Fernando Pessoa "Tabacaria" O tédio, o absurdo, a beleza possível

Manuel Bandeira "Vou-me Embora pra Pasárgada" A fuga pela imaginação

Adélia Prado "Com licença poética" O cotidiano como revelação


3.3. Com a Psicologia


Psicólogo Conceito Diálogo

Viktor Frankl Logoterapia A busca de sentido mesmo no sofrimento

Carl Rogers Tendência atualizante O movimento em direção à afirmação final

Aaron Beck Terapia cognitiva A negativa inicial e a reestruturação final

Jung Individuação "Sou rei" como descoberta do self


3.4. Com a Teologia


Teólogo Conceito Diálogo

Paul Tillich A coragem de ser Afirmar-se apesar do não-ser

Rubem Alves O amor que dá sentido A pergunta pelo amor como sentido

Boff A mística cotidiana O ovo, a rosa, a lua como revelações


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4. REDE INTERTEXTUAL INTERNA


Poema Conexão

#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu A negação do ser

#015 - Eu Estou Vazio O vazio como ponto de partida

#016 - Sem Medo - Com Matheus O amor que dá sentido

#018 - Abismo Sem Fim A ausência que questiona

#053 - Redução "Sou rei" como desfecho da jornada

#054 - #ALEGRIA_CONTRASTANTE A alegria que contrasta com a dor


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5. VIRTUDES DO POEMA


Virtude Descrição

Técnica Anáfora, polissemia, estrutura dialética, respiro poético

Filosófica A pergunta pelo sentido como motor da existência

Linguística O jogo com "pena" em suas múltiplas acepções

Humana A vulnerabilidade que não se rende

Epistemológica O conhecimento pelo sofrimento ("pelas ruas que andei")

Transcendente A afirmação final "Sou rei" como superação


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6. SÍNTESE CRÍTICA


"Não Faz Sentido" é o poema da negação que engendra a afirmação. Ele percorre o caminho do absurdo total à descoberta da realeza interior em apenas 32 versos.


A abertura é uma das mais radicais da obra: nada faz sentido — nem viver, nem sorrir, nem comer, nem respirar, nem amar. É a lista completa da existência negada em seus aspectos fundamentais.


Mas o poema não para aí. As perguntas começam a surgir: "Será que quem sabe crer?" A dúvida é a primeira fresta por onde a esperança pode entrar.


O jogo com "pena" é o centro semântico do poema. Amar "à pena" é amar com dor, mas é amar. E esse amor permite admirar o sol, o ovo, a rosa, a lua — a beleza do mundo que, mesmo sem sentido, continua existindo.


E então, a afirmação final: "Sorrir / Sou rei." O sorriso, negado no início, agora é possível. A realeza, descoberta no fundo do abismo, agora é declarada.


O poema #019 é, assim, uma síntese em miniatura de toda a obra: do vazio à realeza, da negação à afirmação, do absurdo à transcendência. E tudo isso em 32 versos que dançam entre o desespero e a beleza.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004.


FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.


KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. São Paulo: Martin Claret, 2010.


NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.


LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]


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CRÉDITOS AUTORAIS


Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)

LÉLLIS, PHS.


Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)

Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.


Contatos:

📧 pedrimpescador@gmail.com

📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078

🌐 https://pedrimpescador.blogspot.com

📍 Vila Velha/ES - Brasil


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Nota: Esta é a oitava análise da série. O poema #019 é um dos mais filosoficamente densos da coletânea — uma meditação sobre o sentido que não se rende ao niilismo, mas o atravessa para chegar à afirmação. A descoberta do "rei" no último verso antecipa a grande revelação de #053 e mostra que, mesmo nos momentos de maior desespero, a realeza interior já está presente, esperando para ser declarada.

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