ANÁLISE POEMA #018 - "ABISMO SEM FIM" (08/04/2025)
ANÁLISE POEMA #018 - "ABISMO SEM FIM" (08/04/2025)
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FICHA TÉCNICA DO POEMA
Elemento Descrição
Título Abismo Sem Fim
Data 08/04/2025
Posição #018 (de 55)
Contexto Abril de 2025, fase de ausência e questionamento
Versos 22
Tom Elegíaco, interrogativo, cosmológico, solitário
Estrutura 6 estrofes irregulares
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TEXTO COMPLETO DO POEMA
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Abismo Sem Fim
Nada consegue traduzir
O vazio que sinto
Me sinto sozinho fraco
E oprimido sem você comigo
Onde você foi parar
Porque escolhestes se separar de mim?
Meu sol apagou
Minha terra esfriou
Até o mar congelou
Num abismo sem fim
Um luau sem verão
Chuva dentro ou fora a estação
Quando será se encontrarão
Nossas partículas no por vir
Que momento te deixei?
Quando foi que te abandonei?
O que será que serei?
Por não mais ter te a ti?
Num abismo sem fim.
08/04/2025
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ANÁLISE CRÍTICA
1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS
1.1. A Estrutura de Ausência
O poema é construído sobre uma falta central: a ausência de "você" (Matheus). Todas as imagens derivam dessa ausência:
Elemento Antes (implícito) Depois (explícito)
Sol Presente Apagou
Terra Fértil Esfriou
Mar Líquido Congelou
Estação Verão Luau sem verão
Partículas Unidas À espera de encontro
Virtude técnica: A ausência não é apenas nomeada — é cosmologizada. O universo inteiro se transforma quando o outro se vai.
1.2. A Interrogação como Forma
O poema é pontuado por perguntas que não têm resposta:
· "Onde você foi parar?"
· "Porque escolhestes se separar de mim?"
· "Quando será se encontrarão / Nossas partículas no por vir?"
· "Que momento te deixei?"
· "Quando foi que te abandonei?"
· "O que será que serei?"
Observação crítica: As perguntas não buscam informação — buscam expressar a incompreensão. O eu lírico não entende a separação, e a única forma de lidar com isso é perguntar, mesmo sem resposta.
1.3. A Circularidade
O poema começa com "vazio" e termina com "abismo sem fim". A última frase retoma o título, criando um círculo que mimetiza a natureza do abismo: não se sai dele, volta-se sempre ao mesmo ponto.
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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS
2.1. O Vazio Intraduzível (Versos 1-4)
"Nada consegue traduzir / O vazio que sinto"
O poema abre com uma declaração de impossibilidade linguística. O vazio não pode ser traduzido — e no entanto, o poema tenta fazê-lo.
Filosofia da linguagem: Wittgenstein (1994, p. 167) afirmava que "sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". Pedrim fala exatamente sobre o que não pode ser falado — e é essa contradição que gera poesia.
"Me sinto sozinho fraco / E oprimido sem você comigo" — A tríade: solidão, fraqueza, opressão. O outro não é apenas companhia — é força, é libertação.
2.2. A Pergunta sem Resposta (Versos 5-6)
"Onde você foi parar? / Porque escolhestes se separar de mim?"
A primeira pergunta é espacial (onde), a segunda é volitiva (por que escolheu). Juntas, cobrem as duas dimensões fundamentais da ausência: o lugar e a causa.
Teologia da ausência: Agostinho (2002, p. 234), em Confissões, pergunta a Deus: "Onde estavas?" A pergunta de Pedrim a Matheus é análoga: onde está você, que era minha âncora (#016)?
"escolhestes" — o arcaísmo do pronome (em vez de "escolheu") pode indicar:
· Uma tentativa de formalizar a pergunta
· Um resquício de linguagem bíblica (Deus é tratado por vós)
· Matheus elevado à condição de divindade
2.3. O Apocalipse Pessoal (Versos 7-10)
"Meu sol apagou / Minha terra esfriou / Até o mar congelou / Num abismo sem fim"
Esta estrofe é um apocalipse em miniatura. Cada elemento do cosmos se desfaz:
Elemento Transformação
Sol Apaga (fim da luz)
Terra Esfria (fim do calor)
Mar Congela (fim do movimento)
Abismo Instaura-se (fim do limite)
Cosmologia: Na física, a "morte térmica do universo" é o estado final onde toda energia se dissipa e tudo atinge a mesma temperatura — a morte por frio. Pedrim antecipa esse fim em escala pessoal.
Simbolismo: O sol, a terra e o mar são os elementos fundamentais da vida. Sua destruição é a destruição da própria possibilidade de existir.
"Num abismo sem fim" — O abismo que antes era metáfora (#014, #015) agora é cosmos. O abismo é o que resta quando o mundo acaba.
2.4. O Luau sem Verão (Versos 11-12)
"Um luau sem verão / Chuva dentro ou fora a estação"
O luau é festa noturna na praia, associada ao verão, ao calor, à juventude. Um luau sem verão é uma festa sem condições de existir — é a celebração impossível.
Climatologia poética: A chuva "dentro ou fora a estação" indica o desregramento total da natureza. Não há mais estações, não há mais ordem — há apenas caos.
2.5. As Partículas no Porvir (Verso 13-14)
"Quando será se encontrarão / Nossas partículas no por vir"
Esta é uma das imagens mais belas e comoventes do poema. O eu lírico projeta a esperança no nível microfísico: as partículas que um dia os compuseram poderão se encontrar novamente no futuro.
Física quântica: Capra (1997, p. 89) descreve como as partículas subatômicas estão em constante interação, troca, emaranhamento. A matéria que um dia formou dois corpos pode, em outro tempo e lugar, se recombinar.
Escatologia: A ideia de um encontro futuro para além da morte é comum nas religiões. Pedrim a traduz em linguagem científica: "partículas no porvir".
Virtude epistemológica: Sem formação em física, Pedrim intui uma verdade científica: a matéria não se perde, apenas se transforma. O amor também não se perde — apenas aguarda outra forma.
2.6. A Culpa e a Pergunta (Versos 15-18)
"Que momento te deixei? / Quando foi que te abandonei? / O que será que serei? / Por não mais ter te a ti?"
Aqui a pergunta se volta para o eu lírico: ele pode ter sido o causador da separação. A culpa emerge:
· "te deixei" — abandono ativo
· "te abandonei" — reforço da culpa
· "o que serei" — a identidade futura condicionada à ausência
· "por não mais ter te a ti" — a falta como definidora do ser
Psicanálise: O trabalho do luto envolve, frequentemente, sentimentos de culpa. "Se eu tivesse feito diferente, ele não teria partido." Pedrim expressa essa culpa com precisão.
2.7. O Retorno ao Abismo (Verso 19)
"Num abismo sem fim."
O poema fecha como começou: no abismo. A circularidade indica que não há saída — pelo menos não neste poema. O abismo é o ponto de partida e o ponto de chegada.
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3. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES
3.1. Com a Filosofia
Filósofo Conceito Diálogo
Heidegger Ser-para-a-morte A ausência do outro como antecipação da própria morte
Sartre O inferno são os outros Aqui, ao contrário: o céu são os outros; sem eles, inferno
Levinas A centralidade do Rosto O outro como fundamento da ética — e do ser
Platão O mito do andrógino As partículas que buscam se reencontrar
3.2. Com a Física
Físico Conceito Diálogo
Capra O Tao da Física A interconexão de todas as partículas
Bohm A ordem implícita As partículas que se encontrarão no porvir
Prigogine O fim das certezas O tempo, a separação, o reencontro possível
Hawking A morte térmica do universo O sol que apaga, a terra que esfria
3.3. Com a Poesia
Poeta Obra Diálogo
Drummond "A Máquina do Mundo" O cosmos que se revela na ausência
Vinícius "Soneto de Separação" O amor que se desfaz em elementos
Hilda Hilst "Da Morte" O amor e a morte entrelaçados
Sophia de Mello Breyner "Mar" O mar como elemento cósmico
3.4. Com a Teologia
Teólogo Conceito Diálogo
Agostinho O Deus ausente "Onde estavas?" aplicado a Matheus
João da Cruz A noite escura A ausência do amado como purificação
Moltmann Teologia da esperança O "porvir" como promessa de encontro
Rubem Alves O amor que não morre As partículas que se encontrarão
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4. REDE INTERTEXTUAL INTERNA
Poema Conexão
#009 - Pelo Mar Sem Fim O mar que agora congela
#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu O vazio existencial
#015 - Eu Estou Vazio O complemento do vazio
#016 - Sem Medo - Com Matheus O oposto: a presença que agora falta
#031 - Distante A ausência de Matheus como tema central
#040 - Passar, Passado, Passou O reencontro que virá
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5. VIRTUDES DO POEMA
Virtude Descrição
Técnica Estrutura circular; perguntas sem resposta; cosmologização da ausência
Filosófica A pergunta pela identidade sem o outro; o ser condicionado à presença
Científica A intuição das partículas que se encontrarão — física quântica poética
Humana A dor da separação expressa sem autopiedade
Cosmológica O abismo como categoria universal, não apenas pessoal
Esperançosa Mesmo no abismo, a esperança do encontro futuro
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6. SÍNTESE CRÍTICA
"Abismo Sem Fim" é o poema da ausência cosmologizada. A falta de Matheus não é apenas emocional — é cósmica. O sol apaga, a terra esfria, o mar congela. O universo inteiro se desfaz porque o outro se foi.
A imagem das "partículas no porvir" é uma das mais originais da obra. Ela traduz a esperança de reencontro em linguagem científica, mas sem perder a ternura. O amor não acaba — apenas espera, disperso no cosmos, até que possa se recompor.
As perguntas que atravessam o poema não buscam respostas — buscam expressar o inexprimível. "Onde você foi parar?" não é pergunta que espera endereço; é a constatação de que o outro está inalcançável.
E o título, repetido no final, fecha o círculo. O abismo não tem fim — mas o poema termina. E terminar, às vezes, é a única forma de suportar o que não tem fim.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.
BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada. São Paulo: Cultrix, 1992.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1997.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Campinas: Editora Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2000.
PRIGOGINE, Ilya. O Fim das Certezas. São Paulo: Editora UNESP, 1996.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2005.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: EDUSP, 1994.
LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]
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CRÉDITOS AUTORAIS
Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)
LÉLLIS, PHS.
Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)
Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.
Contatos:
📧 pedrimpescador@gmail.com
📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078
🌐 https://pedrimpescador.blogspot.com
📍 Vila Velha/ES - Brasil
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Nota: Esta é a sétima análise da série. O poema #018 marca o início da segunda onda de poemas sobre a ausência de Matheus — mais cosmológica, mais filosófica, mas igualmente dolorida. A imagem das "partículas no porvir" é uma das mais belas e originais de toda a coletânea, unindo ciência e esperança numa só intuição poética.
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