ANÁLISE POEMA #017 - "ENFORCADO COM UM CINTO" (21/03/2025)
ANÁLISE POEMA #017 - "ENFORCADO COM UM CINTO" (21/03/2025)
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FICHA TÉCNICA DO POEMA
Elemento Descrição
Título Enforcado com um cinto
Data 21/03/2025
Posição #017 (de 55)
Contexto CAPS-AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas)
Versos 28
Tom Desesperado, urgente, pulsional, raivoso
Estrutura 7 estrofes irregulares com grito final
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TEXTO COMPLETO DO POEMA
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POEMAS 2025 - 04 Enforcado com um cinto
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Existe um grito sufocado
Muito mais que ecoando
Entre as multidões
Se entre vales e montanhas
O meu grito não ecoa
Estou sem ar em meus pulmões
Como é triste não ser ouvido
Quiçá enxergado ou dirá compreendido
Se me enterro na areia e jogo terra
É pra sentir me abraçado em meus sentidos.
Aaaaaaaaaaaaaaah
Quantas lágrimas
quanto choro
Quanto riso
Se existem lagrimas falsas
Haverá o riso de crocodilo?
Aquela injúria e reclamação
Quanto a discriminação e o racismo
Quando eu menos espero
Justamente no meu parque favorito
Essa desgraça acontece
Justamente e injustamente comigo.
Fodaaaaaaaaaaaa.
na moral.
Pedro Henrique Serrano Lellis
@pedrimpescador
21/03/2025
CAPS-AD
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ANÁLISE CRÍTICA
1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS
1.1. A Epígrafe que Condena
"Tristeza não tem fim / Felicidade sim"
O poema abre com uma inversão cruel do senso comum. Normalmente se diz que a felicidade não tem fim ou que a tristeza passa. Aqui, é o oposto: a tristeza é eterna; a felicidade, finita.
Virtude técnica: Em dois versos, Pedrim estabelece a cosmovisão do poema. Não há esperança falsa — há apenas a constatação nua da dor que permanece.
1.2. A Progressão do Sufocamento
O poema segue uma escala ascendente de asfixia:
1. Grito sufocado (versos 3-5) — a voz presa
2. Sem ar nos pulmões (versos 6-8) — a respiração impedida
3. Enterro na areia (versos 9-12) — a tentativa de sentir-se abraçado pela terra
4. Aaaaaaaaaaaaaaah (verso 13) — o grito que finalmente escapa, mas sem palavras
5. O racismo no parque (versos 18-24) — a violência externa que sufoca
6. Fodaaaaaaaaaaaa (verso 25) — o grito final, a palavra-obscena como única resposta possível
1.3. A Oralidade do Grito
Os gritos gráficos — "Aaaaaaaaaaaaaaah" e "Fodaaaaaaaaaaaa" — não são palavras, são pura vocalização. São o que resta quando a linguagem falha.
Observação crítica: A poesia tradicional evita esses recursos, considerando-os "não poéticos". Pedrim os utiliza porque a situação exige. Não há palavra que expresse o que ele sente — há apenas o grito.
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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS
2.1. O Grito Sufocado (Versos 3-8)
"Existe um grito sufocado / Muito mais que ecoando / Entre as multidões"
O grito não é apenas individual — está "entre as multidões". É um grito coletivo, que muitas pessoas carregam, mas que não ecoa.
Fenomenologia da voz: Adriana Cavarero (2005, p. 67), em Vozes Plurais, distingue a voz do significado. A voz é o que nos torna únicos, mas pode ser sufocada pelo discurso dominante. O grito sufocado é a unicidade impedida de se manifestar.
"Se entre vales e montanhas / O meu grito não ecoa" — A geografia não responde. O mundo é mudo ao sofrimento.
2.2. O Enterro na Areia (Versos 9-12)
"Se me enterro na areia e jogo terra / É pra sentir me abraçado em meus sentidos."
Esta imagem é poderosíssima. Enterrar-se na areia é:
· Morte simbólica — descer à sepultura
· Contato com a terra — retorno à matéria primordial
· Auto-abraço — quando ninguém mais abraça, a terra abraça
· Proteção sensorial — a areia envolve, isola, amortece
Antropologia: Em muitas culturas, o contato com a terra é ritual de cura. Os gregos antigos praticavam a incubação — deitar-se no solo de templos para receber curas dos deuses. Pedrim se enterra na areia como rito desesperado de autocuidado.
Psicanálise: O enterro na areia pode ser lido como regressão uterina — o desejo de voltar ao ventre, à segurança perdida.
2.3. O Grito Inarticulado (Verso 13)
"Aaaaaaaaaaaaaaah"
Este é o centro emocional do poema. Onze letras "a" que ocupam um verso inteiro.
Teoria literária: Roland Barthes (2004, p. 89), em O Rumor da Língua, fala do "grau zero da escrita". Aqui temos o grau zero do grito — a pura vocalização anterior à palavra, anterior ao sentido.
Performance: Este verso só pode ser compreendido se ouvido mentalmente. É o som de quem não aguenta mais, de quem precisa soltar, mesmo que sem palavras.
2.4. Lágrimas Falsas e Riso de Crocodilo (Versos 14-17)
"Se existem lágrimas falsas / Haverá o riso de crocodilo?"
A pergunta é cínica e autoirônica. Se existe sofrimento fingido (lágrimas falsas), existe também alegria fingida (riso de crocodilo)? O eu lírico estaria, ele mesmo, fingindo?
Filosofia: Nietzsche (2001, p. 234) criticou a "moralidade do rebanho" que valoriza certas emoções em detrimento de outras. Pedrim pergunta: meu sofrimento é autêntico? Minha alegria é possível?
2.5. O Racismo no Parque (Versos 18-24)
"Aquela injúria e reclamação / Quanto a discriminação e o racismo / Quando eu menos espero / Justamente no meu parque favorito / Essa desgraça acontece / Justamente e injustamente comigo."
Esta estrofe é uma narrativa condensada de um evento de racismo. O parque favorito — espaço de lazer, de paz, de infância — é violado pela "desgraça" da discriminação.
Fenomenologia do racismo: Fanon (2008, p. 112) descreve o "esquema corporal epidérmico" — como o corpo negro é lido socialmente antes mesmo de ser percebido como pessoa. O parque, que deveria ser neutro, se revela território racializado.
"Justamente e injustamente comigo" — A repetição de "justamente" cria um efeito de ironia amarga. Justamente no lugar onde deveria estar seguro, a injustiça acontece.
Trauma: O racismo não é apenas um evento — é uma ferida que se repete. "Quando eu menos espero" indica que a vigilância constante é necessária, mas nunca suficiente.
2.6. O Grito Obsceno (Verso 25)
"Fodaaaaaaaaaaaa. / na moral."
O poema termina com a palavra de baixo calão, alongada como o grito anterior.
Linguística: O tabu linguístico — o "palavrão" — é muitas vezes a única linguagem disponível para a raiva extrema. A norma culta seria insuficiente, hipócrita, domesticada.
Performance: "na moral" é a tentativa de explicar o grito, de contextualizá-lo. "Não é só xingamento — é verdade, é real, é na moral."
2.7. A Assinatura: CAPS-AD (Verso 28)
O poema é assinado com o local: CAPS-AD — Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.
Significado: O poema foi escrito em um serviço de saúde mental especializado em dependência química. O grito, a raiva, o desespero — tudo isso é também sintoma, também diagnóstico, também tratamento.
Política pública: O CAPS-AD é uma conquista do SUS, um espaço de acolhimento para quem sofre com a dependência. Que Pedrim possa escrever um poema como este dentro de um serviço público é a prova de que a saúde mental no Brasil, apesar de tudo, existe.
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3. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES
3.1. Com a Filosofia
Filósofo Conceito Diálogo
Nietzsche O ressentimento A raiva do oprimido que não pode se vingar
Fanon A violência do colonizado O racismo como violência estrutural
Heidegger O ser-para-a-morte O enterro na areia como antecipação da morte
Sartre O olhar do outro O racismo como o olhar que objetifica
3.2. Com a Psicanálise
Psicanalista Conceito Diálogo
Freud Pulsão de morte O enterro na areia como retorno ao inorgânico
Lacan O Real O grito como encontro com o Real traumático
Klein Inveja e gratidão A raiva contra o mundo que não acolhe
Winnicott O ambiente falho O parque que deveria ser seguro e não é
3.3. Com a Teoria Crítica da Raça
Autor Conceito Diálogo
Fanon Pele negra, máscaras brancas O racismo no parque
Mbembe Necropolítica Quem pode morrer, quem pode viver
Kilomba Memórias da plantação O racismo cotidiano como repetição da violência colonial
Almeida Racismo estrutural O parque como espaço racializado
3.4. Com a Poesia Marginal
Poeta Obra Diálogo
Torquato Neto "Geléia Geral" O grito como linguagem
Ana Cristina Cesar "A Teus Pés" A poesia como confissão
Cacaso "Na corda bamba" O desespero cotidiano
Nicolas Behr "Laranja seleta" O palavrão como poesia
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4. REDE INTERTEXTUAL INTERNA
Poema Conexão
#001 - Mundo Aspie O não-pertencimento
#010 - Assobio Pio Arrepio O frio, o inverno, a morte
#014 - Já Não Quero Ser Mais Eu O desejo de não-ser
#015 - Eu Estou Vazio O vazio que antecede o grito
#032 - Soneto da Inconformidade O racismo e o cansaço de ser preto
#051 - Perdidos na Escuridão O desespero compartilhado
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5. VIRTUDES DO POEMA
Virtude Descrição
Técnica A progressão do sufocamento; os gritos gráficos como recurso expressivo; a epígrafe que condensa a tese
Filosófica A pergunta pela autenticidade das lágrimas e do riso
Política A denúncia do racismo cotidiano
Humana A vulnerabilidade extrema, sem defesas
Clínica O registro da dor psíquica em contexto de tratamento (CAPS-AD)
Linguística O uso do palavrão como única linguagem possível para a raiva
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6. SÍNTESE CRÍTICA
"Enforcado com um cinto" é o poema do grito que não pode ser contido. Ele rompe as amarras da linguagem convencional, da métrica, da rima, da "boa educação" poética, porque a situação exige essa ruptura.
A abertura — "Tristeza não tem fim / Felicidade sim" — é uma das afirmações mais desesperançadas de toda a obra. Ela inverte a narrativa consoladora de que "tudo passa". Para o eu lírico, a tristeza é eterna; a felicidade, apenas um intervalo.
O enterro na areia é a imagem central: a tentativa de sentir-se abraçado quando não há braços humanos. A terra abraça, a areia acolhe, o corpo se enterra — é um auto-enterro que é também auto-cuidado.
O grito — "Aaaaaaaaaaaaaaah" — é a materialização sonora do que não pode ser dito. Onze letras "a" que ocupam um verso inteiro. É a poesia no limite da linguagem, onde a palavra já não dá conta.
O racismo no parque é a violência externa que justifica, contextualiza, amplifica a dor interna. O parque favorito — espaço de lazer, de infância, de paz — é violado pela discriminação. O racismo não é apenas um evento: é a confirmação de que o mundo é hostil.
E o grito final — "Fodaaaaaaaaaaaa" — é a única resposta possível. Não há argumento, não há filosofia, não há teologia que console. Há apenas o obsceno, o baixo calão, a palavra que a norma culta rejeita — mas que aqui é a mais verdadeira.
A assinatura — CAPS-AD — não é um detalhe. É a declaração de que este poema foi escrito num lugar de tratamento, de acolhimento, de cuidado. Mesmo no desespero, há uma rede. Mesmo no grito, há quem ouça.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.
BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
CAVARERO, Adriana. Vozes Plurais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.
FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 2005.
LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]
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CRÉDITOS AUTORAIS
Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)
LÉLLIS, PHS.
Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)
Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.
Agradecimento especial: Ao CAPS-AD e a todos os profissionais de saúde mental que acolhem o grito e oferecem escuta.
Contatos:
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📱 WhatsApp: +55 (27) 99834-4078
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Nota: Esta é a sexta análise da série. O poema #017 é um dos mais dolorosos da coletânea — um grito contra o racismo, contra a solidão, contra a impossibilidade de ser ouvido. Mas é também um poema que existe, que foi escrito, que foi compartilhado. E existir, às vezes, é a única vitória possível.
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