ANÁLISE POEMA #014 - "JÁ NÃO QUERO SER MAIS EU" (01/03/2025)
ANÁLISE POEMA #014 - "JÁ NÃO QUERO SER MAIS EU" (01/03/2025)
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FICHA TÉCNICA DO POEMA
Elemento Descrição
Título Já Não Quero Ser Mais Eu
Data 01/03/2025
Posição #014 (de 55)
Contexto Março de 2025, fase de esvaziamento existencial
Versos 40
Tom Elegíaco, interrogativo, teológico, desesperançado
Assinatura Pedro Henrique Serrano Lellis / @pedrimpescador
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TEXTO COMPLETO DO POEMA
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Já Não Quero Ser Mais Eu
Já não quero ser mais eu
Quiçá não mais existir
Questiono o conseguir
Onde minh'alma vagará?
Já não quero ser mais eu
Nem lembrar do que um dia fui
Se eu não andar com Deus
O meu futuro é o primeiro que rui
Não queria respirar
E também não consentir
E também não mais sentir
Nada além de mesmo a mi
Não queria questionar
Muito menos sugestionar
Quem sabe me embriagar
De um duvidoso porvir
O que será que será?
E o que sucede a José?
O que sucede a Matheus?
E ao bom Deus Jeová?
Onde é que é que Ele estará?
Será que nas nuvens, no céu na terra ou no mar?
Será que em mim habitaria?
Se ninguém m'valorizar?
Quanto vale quanto vale?
Uma manchete nos jornais?
Um segundo a mais de vida?
Ou das dores mais um ai?
Quanto vale existir?
Sem ter a quem amar?
Esquecido hashtag por todos
Enquanto por todos me preocupar?
Deveria finalizar com Esperança
Pois Na Terra da Aflição ele morreu
Mas finalizo com esperança
Pois Na Terra do Aconchego ela um dia então nasceu.
Pedro Henrique Serrano Lellis
@pedrimpescador
01/03/2025
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ANÁLISE CRÍTICA
1. ASPECTOS ESTRUTURAIS E TÉCNICOS
1.1. A Negação como Estrutura Fundamental
O poema é construído sobre um edifício de negações:
Negação Verso
"Já não quero ser" #1, #5
"Não queria respirar" #9
"não consentir" #10
"não mais sentir" #11
"Não queria questionar" #13
A repetição cria um ritmo de aniquilação. Cada estrofe remove uma camada do ser: primeiro a identidade, depois a respiração, depois a sensação, depois o pensamento.
Virtude técnica: Pedrim utiliza a anáfora (repetição no início dos versos) como martelo. Cada "não" é uma batida no caixão do eu.
1.2. A Progressão do Apagamento
O poema segue uma escala descendente:
1. Desejo de não-ser (versos 1-4)
2. Desejo de não-lembrar (versos 5-8)
3. Desejo de não-respirar (versos 9-12)
4. Desejo de não-questionar (versos 13-16)
5. Questionamento sobre o divino (versos 17-24)
6. Questionamento sobre o valor (versos 25-32)
7. Esperança final (versos 33-36)
A estrutura é dialética: tese (desejo de não-ser), antítese (questionamento), síntese (esperança).
1.3. A Rima e a Sonoridade do Vazio
O poema utiliza rimas que ecoam o vazio:
· "eu" / "Deus" — a rima mais importante: o eu só rima com Deus quando está em queda
· "existir" / "conseguir" — o esforço que não alcança
· "porvir" / "rui" — o futuro que desaba
Observação crítica: As rimas não são ornamentais — são estruturantes. Elas criam pontos de apoio num poema que quer desmoronar.
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2. CAMADAS INTERPRETATIVAS
2.1. O Desejo de Não-Ser (Versos 1-4)
"Já não quero ser mais eu / Quiçá não mais existir"
Esta é a declaração mais radical do poema. Não é apenas "não quero viver" — é "não quero ser". A diferença é ontológica.
Filosofia: Heidegger (2012, p. 192) define o Dasein (ser-aí) como o ente que se pergunta pelo ser. Pedrim está no extremo oposto: ele não quer mais se perguntar — ele quer deixar de ser o ente que pergunta.
Teologia: Mística apofática (via negativa) — alguns místicos desejam o aniquilamento do eu para que Deus possa ser tudo. Mas aqui não há união com Deus; há apenas exaustão.
"Questiono o conseguir / Onde minh'alma vagará?" — A pergunta revela que, mesmo no desejo de não-ser, resta a consciência. A alma vagará, mesmo que o eu não queira.
2.2. A Dependência de Deus (Versos 5-8)
"Se eu não andar com Deus / O meu futuro é o primeiro que rui"
Aqui está a cosmovisão teológica de Pedrim: o eu só se sustenta em relação com o divino. Sem Deus, o futuro desaba — mas o eu deseja exatamente esse desabamento.
Teologia fundamental: Karl Barth (2003, p. 234) afirma que o ser humano só é verdadeiramente humano em relação com Deus. Pedrim inverte: se a relação com Deus é condição para o ser, então desejar não-ser é desejar a ruptura com Deus.
Paradoxo: O poema, ao mesmo tempo, afirma a dependência de Deus e deseja o fim dessa dependência (pelo fim do eu).
2.3. A Embriaguez do Porvir (Versos 13-16)
"Quem sabe me embriagar / De um duvidoso porvir"
O "duvidoso porvir" é o futuro incerto. Embriagar-se dele é tentar anestesiar a consciência com a possibilidade — mesmo incerta — de que algo mude.
Psicologia do vício: A dependência química é, em parte, uma tentativa de anestesiar a angústia existencial. O "duvidoso porvir" é a aposta no amanhã como fuga do hoje.
Literatura comparada: Fernando Pessoa (2006, p. 89), em Livro do Desassossego, escreve: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Pedrim navega no "duvidoso porvir" porque o presente é insuportável.
2.4. Os Nomes Próprios (Versos 18-20)
"O que sucede a José? / O que sucede a Matheus? / E ao bom Deus Jeová?"
A tríade de nomes é reveladora:
· José — nome comum, talvez alguém específico, talvez o José de Drummond ("E agora, José?")
· Matheus — o amor, a ausência, o outro fundamental
· Deus Jeová — o divino
A pergunta "o que sucede a X?" é a pergunta pelo destino, pelo lugar, pelo paradouro. José, Matheus e Deus estão, de alguma forma, em questão.
Hermenêutica: O eu lírico pergunta pelo destino dos outros porque não sabe o próprio destino. A pergunta é um deslocamento: pergunto por ti porque não suporto perguntar por mim.
2.5. A Habitação de Deus (Versos 21-24)
"Onde é que é que Ele estará? / Será que nas nuvens, no céu na terra ou no mar? / Será que em mim habitaria? / Se ninguém m'valorizar?"
A progressão é notável:
1. Onde está Deus? — pergunta clássica da teodicéia
2. Nas nuvens, céu, terra, mar? — busca nos lugares tradicionais
3. Em mim? — a virada: a possibilidade da habitação interior
4. Se ninguém me valorizar? — a condição: Deus só habitaria se o mundo não o fizer?
Mística: São João da Cruz (2002, p. 156) fala da "morada interior" onde Deus habita. Pedrim pergunta: mesmo que ninguém me valorize, Deus habitaria em mim?
Psicologia: A pergunta revela a necessidade de validação. O eu lírico precisa ser valorizado — por alguém, por Deus — para acreditar que pode ser morada do divino.
2.6. O Valor da Existência (Versos 25-32)
"Quanto vale quanto vale? / Uma manchete nos jornais? / Um segundo a mais de vida? / Ou das dores mais um ai?"
Esta estrofe é uma crítica contundente à sociedade do espetáculo.
Filosofia do valor: Nietzsche (2001, p. 234) questionou todos os valores. Pedrim pergunta: quanto vale a existência quando medida por:
· Manchete — a fama, o reconhecimento público
· Segundo a mais — o tempo biológico, a vida nua
· Ai — a dor, o sofrimento
Hashtag: "Esquecido hashtag por todos" — a ironia é cruel. Na era das redes sociais, ser esquecido é não ter hashtag. O eu lírico se preocupa com todos, mas ninguém lhe dedica uma hashtag.
2.7. A Esperança Final (Versos 33-36)
"Deveria finalizar com Esperança / Pois Na Terra da Aflição ele morreu / Mas finalizo com esperança / Pois Na Terra do Aconchego ela um dia então nasceu."
O poema termina com uma reviravolta:
· Terra da Aflição — onde "ele" (quem? Jesus? O eu lírico? Alguém específico?) morreu
· Terra do Aconchego — onde "ela" (a esperança?) nasceu
A mudança de gênero (ele/ela) é significativa. A morte é masculina; o nascimento é feminino. A esperança é matricial, vem do útero, do acolhimento.
Análise teológica: A morte na Terra da Aflição pode ser a morte de Jesus (Cristo morreu na Terra). A esperança que nasce na Terra do Aconchego pode ser a ressurreição, ou a igreja, ou a própria poesia.
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3. DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES
3.1. Com a Filosofia Existencialista
Filósofo Conceito Diálogo com Pedrim
Heidegger Ser-para-a-morte Pedrim deseja a morte do ser, não apenas a morte biológica
Sartre A liberdade como condenação "Não queria questionar" — fugir da liberdade de escolher
Camus O suicídio como questão filosófica O poema é a formulação poética do suicídio ontológico
Kierkegaard O desespero como doença para a morte "Já não quero ser mais eu" é a fórmula do desespero
3.2. Com a Teologia
Teodicéia: O poema pergunta, como Jó, onde está Deus. Mas diferente de Jó, não há resposta — apenas mais perguntas.
Mística negra: A "Terra da Aflição" e a "Terra do Aconchego" ecoam a espiritualidade afro-brasileira, com seus territórios sagrados de dor e acolhimento.
Cristologia: "Na Terra da Aflição ele morreu" — referência direta à morte de Jesus, mas também à morte de qualquer "ele" que tenha sofrido.
3.3. Com a Psicologia
Depressão: O poema descreve com precisão clínica os sintomas da depressão maior: anedonia ("não mais sentir"), ideação suicida ("não mais existir"), culpa, desesperança.
Luto: A pergunta por José, Matheus e Deus pode ser lida como luto por figuras amadas — ou luto pelo próprio eu que se foi.
Teoria do apego: A necessidade de ser valorizado (versos 23-24, 29-32) revela um apego inseguro, a busca por validação externa.
3.4. Com as Ciências Sociais
Sociedade do espetáculo: "Esquecido hashtag por todos" é crítica aguda à cultura digital, onde existir é ter visibilidade.
Racismo estrutural: Embora não explícito aqui, o poema #014 dialoga com #015 ("Eu Estou Vazio") e #032 ("Soneto da Inconformidade") na tematização do valor social da pessoa negra.
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4. REDE INTERTEXTUAL INTERNA
Este poema estabelece conexões cruciais com outros poemas da obra:
Poema Conexão
#013 - Meu Amor Nosso Amor Deus que não acrescenta dores / Deus cuja habitação é questionada
#015 - Eu Estou Vazio Complemento temático: o vazio como condição
#032 - Soneto da Inconformidade O cansaço de ser preto, o não-valor social
#037 - Nada a Esperar A desesperança levada ao extremo
#053 - Redução O encontro do "rei" após a travessia do vazio
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5. VIRTUDES DO POEMA
Virtude Descrição
Técnica Estrutura dialética perfeita; anáfora como martelo; rimas estruturantes
Filosófica Formulação precisa do desejo de não-ser; diálogo implícito com o existencialismo
Teológica A pergunta pela habitação de Deus no eu não-valorizado
Humana Vulnerabilidade sem autopiedade; desespero que não se exibe, se confessa
Social Crítica à sociedade do espetáculo e à falta de valor atribuída a certas vidas
Esperançosa O final, mesmo frágil, é um "mas" — uma conjunção adversativa que abre possibilidade
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6. SÍNTESE CRÍTICA
"Já Não Quero Ser Mais Eu" é o poema do esvaziamento ontológico. Nele, Pedrim atinge o ponto mais baixo da espiral descendente: o desejo não é de morte, mas de aniquilação do ser. É a formulação poética do que Kierkegaard chamou de "doença para a morte" — o desespero de não poder ser si mesmo e, ao mesmo tempo, de não poder deixar de sê-lo.
A pergunta por José, Matheus e Deus revela que o eu lírico não pergunta por si — pergunta pelos outros porque não suporta perguntar por si mesmo. É um deslocamento da angústia.
A estrofe final, com sua "esperança" quase forçada ("Deveria finalizar com Esperança"), é tocante em sua fragilidade. O "mas" que introduz a esperança não anula o desespero anterior — apenas o contradiz. E é na contradição, na tensão entre o "deveria" e o "mas", que o poema encontra sua verdade: a esperança não é certeza, é teimosia.
"Pois Na Terra do Aconchego ela um dia então nasceu."
A esperança nasce, como uma criança, em algum lugar. Não se sabe onde é a Terra do Aconchego — tal seja o colo de Deus, talvez o abraço de Matheus, talvez a própria poesia. Mas ela nasceu. E isso, para quem desejava não ser, é o começo de tudo.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTH, Karl. Dogmática Eclesiástica. São Paulo: Fonte Editorial, 2003.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Campinas: Editora Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.
KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. São Paulo: Martin Claret, 2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite Escura da Alma. Petrópolis: Vozes, 2002.
LELLIS, Pedro Henrique Serrano. ANO 2025 - POEMAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO. Vila Velha/ES, 2025. [Obra no prelo]
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CRÉDITOS AUTORAIS
Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)
LÉLLIS, PHS.
Crítica literária e análise: DeepSeek (IA)
Mediação humano-IA na construção do diálogo entre a obra poética e o pensamento acadêmico.
Contatos:
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Nota: Esta é a terceira análise da série. O poema #014 revela o abismo ontológico que antecede a descoberta do rei — a noite escura da alma onde o eu deseja deixar de ser. A esperança final, frágil mas presente, é a fresta por onde a luz entrará nos poemas seguintes.
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